domingo, 24 de julho de 2011

MODERNISMO EM PORTUGAL

Contexto histórico:

-1ª Guerra Mundial;
-Meios artísticos invadidos por manifestos de vanguarda;
-Em Portugal, ocorrem turbulências devido à implantação do governo Republicano (1910);
-1908  O rei D.Carlos e o príncipe D. Luís Filipe são assassinados por um popular republicano, e quem assume o trono é um jovem de dezoito anos, D. Manuel II;
-A 1ª Guerra e a disputa sobre as colônias africanas geram uma frustração que encontra refúgio em uma onda de nacionalismo que gera duas correntes em Portugal: os SAUDOSISTAS e os INTEGRALISTAS;
-Volta ao passado e à grandiosidade do Império;
-1920  O nacionalismo português apresenta traços semelhantes ao fascismo italiano e ao nazismo alemão;
-1926  Tem início o governo de Salazar. A ditadura salazarista durará quarenta e oito anos, até a Revolução dos Cravos, em 1974.
-Conflito entre a euforia diante dos avanços técnico-científicos e a disputa pelos mercados consumidores, fator causador da 1ª Guerra Mundial;
-Otimismo x Pessimismo.


Manifestações artísticas:

-Surgimento de diversas tendências preocupadas com uma nova interpretação da realidade;
-Multiplicidade de tendências: as Vanguardas Européias;
-Principais vanguardas: Futurismo
Expressionismo
Cubismo
Dadaísmo
Surrealismo



Algumas características estético-ideológicas do Modernismo:

-Atitude irreverente em relação aos padrões estabelecidos;
-Fuga das tradições literárias;
-Reação ao passado clássico e estático;
-Temática particular e individual;
-Preferência pelo dinamismo;
-Busca do imprevisível;
-Comunicação direta das idéias;
-Linguagem cotidiana;
-Desejo de criar uma literatura que expressasse o novo século;
-Psicologia e Psicanálise;
-Originalidade e autenticidade;
-Interesse pela vida interior (estado de espírito, psíquico e subconsciente);
-Liberdade nos versos e ritmos.



Orpheu (1915)

-Orfismo Movimento dos que participaram da Revista Orpheu;
-Principais nomes: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros;
-Considerada por Pessoa “ a soma e a síntese de todos os movimentos literários”;
-Marco introdutório do Modernismo em Portugal;
-Por ser de uma geração caracterizada por múltiplos vetores dos manifestos europeus, Orpheu talvez tenha vivido mais dos valores individuais de seus integrantes do que de um programa estético bem definido enquanto proposta de grupo;
-Orpheu preconizava a arte pela arte, mas ao mesmo tempo a descida ao próprio poço, a busca ansiosa do eu e a fixação da agitada idade moderna.




Presença (1927-1940)

-Presencismo Movimento dos que participaram da Revista Presença;
-Revista literária de arte e crítica, tendo à frente os nomes de Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões e José Régio;
-Importantíssima na difusão do Modernismo em Portugal;
-Representou uma segunda fase do Modernismo, mais crítica do que criadora;
-O grupo defendia uma “literatura viva”, contra o academicismo e o jornalismo rotineiros, uma crítica livre, o primado do individual sobre o coletivo, o psicológico sobre o social, a intuição sobre a razão;
-Idéia de que a obra de arte não poderia estar limitada por condições de tempo e espaço;
-O Presencismo esfacela-se em 1940.






Fernando Pessoa

-Projeto artístico baseado na coexistência de diferentes tendências;
-Criação de várias entidades poéticas com biografias, traços físicos, profissão e estilo próprios;
-Mais de dez heterônimos, dentre os quais se destacam: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Fernando Pessoa ele-mesmo;
-Fragmentação e despersonalização, visando à composição de um painel de diversas tendências literárias e filosóficas;
-Síntese de tipos humanos;
-Nacionalismo e saudosismo.


Principais heterônimos (características)

Alberto Caeiro

-Considerado pelos outros heterônimos e pelo próprio Pessoa o seu mestre;
-Poeta-filósofo, que tira sua filosofia do contato com a natureza;
-Negação das teorias filosóficas e científicas, bem como das religiões;
-Defesa da simplicidade da vida e da sensação como único meio válido para a obtenção do conhecimento;
-Poeta do sensacionismo, que prega principalmente a apreensão da vida pelos órgãos dos sentidos;
-Vive apenas o presente e crê na simplicidade do real;


Ricardo Reis

-Faceta clássica da obra pessoana;
-É indiferente à vida social e defende a vida campestre e a simplicidade; entretanto, contrariamente à felicidade de Caeiro, Ricardo Reis sente a decadência da civilização, o que confere à sua poesia um caráter derrotista e destrutivo;
-Consciência da passagem do tempo e da inevitabilidade da morte;
-Presença da fatalidade;
-Defesa dos prazeres da vida, que devem ser degustados enquanto a morte não chega;
-Filosofia epicurista, que prega os prazeres naturais, sem excessos;
-Visão de mundo extraída da abstração filosófica;
-Busca de perfeição e de equilíbrio, intelectualismo, frieza na relação amorosa e presença da mitologia pagã.


Álvaro de Campos

-Apresenta semelhanças com as tendências modernistas, sobretudo o Futurismo;
-Versos soltos, movidos pela velocidade e por uma energia febril, revoltada, com exclamações e interrogações;
-Imagens construídas a partir das sensações da vida urbana e industrial;
-Poesia que possui três fases:
Fase decadente;
Fase futurista;
Fase pessoal, de descontentamento e de aridez interior;
-Nostalgia em relação à infância e “dor de existir”;
-Ser inadaptado, que vive à margem das regras sociais;



Fernando Pessoa ele-mesmo
-O mais nacionalista e saudosista de todos os heterônimos;
-Mensagem: Narra o Portugal sonhado por seus heróis, ainda que loucos ou alucinados;
-Cancioneiro: Não expressa uma filosofia definida, mas apresenta temas como saudade, vida, solidão, infância, arte, nostalgia e tédio;
-Poeta da inteligência e da imaginação;
-Reflexão sobre a arte poética e sobre o papel do artista.


Algumas conclusões:

-Fernando Pessoa constitui um dos fenômenos mais intrigantes da literatura. O fenômeno da heteronímia continua desafiando a crítica literária;
-Tanto a poesia ortônima quanto a heterônima destacam a relatividade das coisas;
-Há sempre uma busca do Absoluto, do Universal;
-Através das diferentes descrições físicas, formação cultural, e posturas ideológicas, os heterônimos compõem um verdadeiro painel português.


“Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos. O bom português é várias pessoas.
Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver”.


Alberto Caeiro II

(...)
Creio no mundo como num malmequer.
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

XXIV

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender



Ricardo Reis

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa

Se é para nós que cessa. Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.


A cada qual, como a statura, é dada
A justiça; uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada é prêmio: sucede o que acontece.
Nada, Lídia, devemos
Ao fado, senão tê-lo.



Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exatos
Basta para podermos
Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim,

Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,


Álvaro de Campos


Ode triunfal
(fragmento)

(...)
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!



Tabacaria
(fragmento)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
(...)
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

(...)
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

(...)

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
(...)


Fernando Pessoa ele-mesmo

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.


Iato

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não. http://www.blogger.com/img/blank.gif
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir? Sinta quem lê!

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